
Por muito tempo venho tentando achar o porquê de se chamar aqueles que têm pureza, fragilidade, sinceridade, humildade, aqueles que agem com o instinto mais primeiro, o mais infantil, o mais aberto, de lezeiras.
Seria este mundo desumano, este mundo que faz com que não vivamos com dignidade e com pureza, o mundo que exige que não sejamos lezeiras? Este é o mundo que queremos construir? O mundo da hipocrisia, o mundo da fortaleza aparente e do crescimento antecipado e forçado? Seria ficar adulto um CRESCIMENTO, ou seria uma forma apenas de deixar de ser lezeira, de deixar de ser criança, de perder a pureza de repente... sem motivo?
Muitas vezes nos pegamos intitulando tantos outros de lezeiras sem ao menos nos observar. Nós sabemos que somos iguais a eles e, por tentarmos sempre não mostrar nossa fragilidade para o mundo, disfarçamo-nos em fortaleza sombria, fria, na solidão de nós mesmos, na tristeza da individualidade. Numa escuridão tão profunda que nos esquecemos de ser.
Em todo adulto vive uma criança, só que, infelizmente, em alguns, esta criança está amedrontada no vazio da sua “adultice”. Está sozinha, cansada de tanto ser colocada de castigo por este mundo “adulto”, pelo mundo do crescimento forçado, do crescimento sem amadurecimento, sem felicidade.
Deixamos de fazer grandes amigos, perdemos bons momentos, excelentes conversas, ensinamentos, perdemos de partilhar experiências, perdemos amores, entristecemos pessoas, magoamos. Por não termos a dignidade de ser amigos, de nos apaixonarmos, de não magoarmos àqueles que achamos que, por algum motivo, são a nós inferiores por, ao nosso ver, não terem amadurecido o suficiente para terem nosso tempo e nossa consideração.
Através desta falta de amor e compreensão, por esta falta de tempo para o verdadeiro crescimento, por este falso amadurecimento antecipado é que o mundo está se tornando muito individualista, muito grosso, seco, sem sentimentos e as pessoas estão ficando mais solitárias e perdidas.
Ser lezeira é ter bondade. É ser criança, é ser puro, é ter em si a verdade sobre si mesmo, é expressar o que se sente sem medo de ser feliz, de passar por tolo, sem medo de errar, com vontade apenas de partilhar seus sentimentos e de aprender com a vida e, com o tempo certo, poder amadurecer e compreender a lezeirice dos outros. Não vejamos na sinceridade da lezeirice algo ruim, que deve ser criticado, mas um estado constante de crescimento como ser humano e de ida à verdadeira idade adulta, onde a compreensão e os outros sentimentos tornam-se unidos para a melhoria da vida.
Ser Lezeira é, enfim, ser feliz, puro e ingênuo. É ser criança.
Luiz Felipe Xavier












